A ascensão da inteligência artificial no setor da moda está gerando uma verdadeira revolução, mas também levanta sérias questões éticas e de sustentabilidade para a profissão de modelo. Com a capacidade de criar imagens de roupas e acessórios com modelos gerados por IA, as marcas estão reduzindo custos de produção em até 90%, uma mudança que pode colocar em risco a sobrevivência de muitos profissionais da área.
Um estudo realizado pela Reuters, que analisou contratos de marcas renomadas como Diesel e Calvin Klein, revela que as cláusulas propostas para o uso de IA incluem desde a troca de rostos de modelos até a criação de réplicas digitais, tudo sem compensação adicional. Essa nova realidade expõe uma lacuna preocupante na regulamentação do uso de imagens e direitos de imagem, onde a linha entre a inovação e a exploração se torna cada vez mais tênue.
Os modelos, que tradicionalmente dependem de sessões de fotos para garantir sua renda, estão enfrentando um futuro incerto. Adot Gak, um modelo londrino com experiência em grandes campanhas, expressa sua preocupação com a diminuição de oportunidades no setor, afirmando que, sem uma mobilização adequada, o mercado pode ser dominado por versões digitais, substituindo a autenticidade humana que sempre caracterizou a moda.
Enquanto marcas de moda rápida já estão adotando modelos gerados por IA de forma ampla, as grifes de luxo parecem mais cautelosas. A Moncler e a Gucci, por exemplo, testaram campanhas com essas tecnologias, mas ainda não as incorporaram completamente em suas operações. A diferença de postura entre os segmentos reflete as preocupações sobre a percepção do consumidor e o valor da autenticidade na moda.
Além das questões de imagem, a utilização de IA também pode colocar os modelos em uma posição vulnerável, onde suas próprias imagens são usadas para alimentar sistemas de inteligência artificial que podem eventualmente substituí-los. Contratos analisados indicam que algumas marcas buscam o direito de usar as imagens de modelos para treinar IA, sem que haja compensação financeira, levantando questões sobre a ética no uso de trabalho criativo.
Enquanto a indústria da moda se adapta a essas novas tecnologias, a falta de regulamentação torna a situação ainda mais complexa. Nos Estados Unidos, a Lei dos Trabalhadores da Moda de Nova York proíbe a criação ou modificação de réplicas de modelos sem consentimento, mas essa é uma exceção em um cenário global onde muitos ainda operam sem diretrizes claras. A luta por direitos e proteção nesse novo contexto é essencial para garantir que a inovação não se torne uma ferramenta de exploração.
A necessidade de um diálogo mais amplo sobre a ética da IA na moda é inegável. A pressão para que modelos e marcas se unam em busca de regulamentações adequadas se torna cada vez mais urgente, à medida que a tecnologia avança e redefine o que significa ser um modelo na era digital.



